Edson Braga defende qualidade como ativo estratégico na indústria de alimentos
Empresário afirma que decisões de corte de custos precisam considerar impacto sobre recompra, confiança e valor de marca
A qualidade dos alimentos deveria ser tratada como parte da estratégia econômica das empresas, e não apenas como responsabilidade técnica ou centro de custo. A avaliação é de Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência.
Segundo Braga, investimentos em matéria-prima, pesquisa e desenvolvimento, manutenção, treinamento e controle geram despesas imediatas, enquanto parte do retorno aparece ao longo do tempo, por meio de recompra, reputação e preferência pela marca.
Esse intervalo, segundo ele, pode levar empresas a adotar medidas que melhoram o resultado de curto prazo, mas enfraquecem gradualmente a relação com o consumidor.
Pequenas mudanças podem afetar a preferência
Trocas de fornecedores, alterações de ingredientes, mudanças de embalagem ou ajustes de processo podem gerar economias sem provocar uma reação imediata do mercado.
Braga chama atenção, porém, para o fato de que a ausência de reclamações não significa necessariamente que a mudança passou despercebida.
O consumidor pode simplesmente deixar de comprar.
Por isso, ele defende que empresas acompanhem alterações de produto não apenas pelo impacto financeiro imediato, mas também por indicadores como recompra, reclamações e avaliações sensoriais.
Recompra pode ajudar a medir qualidade
Preço, promoções, distribuição e concorrência influenciam a decisão de compra, mas a repetição da escolha também fornece informações importantes sobre o desempenho do produto.
Na avaliação de Braga, a primeira compra pode ser fortemente influenciada por comunicação e preço. A recompra depende mais diretamente daquilo que foi entregue ao consumidor.
Por esse motivo, dados comerciais e avaliações técnicas deveriam ser analisados de forma integrada.
A proposta é identificar quais características realmente sustentam preferência e quais custos podem ser reduzidos sem comprometer o produto.
Eficiência não deve eliminar atributos valorizados
A redução de custos continua sendo necessária para a competitividade das empresas.
Braga diferencia, no entanto, cortes de desperdício de mudanças que afetam diretamente sabor, textura, aroma ou consistência.
Retrabalho, consumo desnecessário de energia, setups excessivos e processos sem função representam oportunidades claras de eficiência.
Já mudanças de formulação e matéria-prima exigem avaliação mais ampla.
Uma economia na compra pode deixar de ser vantajosa caso provoque perda de preferência, maior necessidade de promoções ou queda de recompra.
Aquisições também exigem atenção à qualidade
A análise ganha importância em processos de fusões e aquisições.
Indicadores como receita, EBITDA, dívida e crescimento são fundamentais para avaliar uma empresa, mas Braga considera que o setor de alimentos precisa acrescentar outra pergunta: por que o consumidor continua comprando aquele produto?
A resposta pode estar em fornecedores específicos, matérias-primas, processos ou conhecimento acumulado ao longo de anos.
Nesse cenário, iniciativas de integração e busca por sinergias precisam ser avaliadas com cuidado para não eliminar justamente características que contribuíram para o valor da empresa adquirida.
O mesmo princípio vale para companhias em expansão.
Aumentar capacidade produtiva sem preservar os atributos que fizeram o produto ganhar mercado pode gerar crescimento de volume com perda de identidade.
Indicadores podem alinhar diferentes áreas
Braga também defende maior integração entre departamentos.
Compras, produção, financeiro, P&D, manutenção, logística e comercial influenciam diretamente o produto final.
Quando cada área trabalha apenas com metas próprias, uma empresa pode melhorar indicadores internos e, ao mesmo tempo, deteriorar aquilo que chega ao consumidor.
Por isso, métricas de qualidade, desperdício, recompra e reclamações podem ajudar a complementar indicadores financeiros e operacionais.
“O consumidor não compra o organograma”, resume a tese apresentada pelo empresário. Ele recebe o resultado conjunto das decisões tomadas dentro da companhia.
Confiança também gera valor econômico
Na avaliação de Edson Braga, marcas fortes acumulam confiança ao longo do tempo.
Quando o consumidor acredita que encontrará novamente o mesmo padrão de qualidade, a decisão de compra se torna mais simples e aumenta a possibilidade de recorrência.
Esse valor não aparece diretamente como uma linha específica no balanço, mas influencia reputação, marca e capacidade de venda.
Por outro lado, sucessivas decisões que enfraquecem o produto podem consumir esse patrimônio.
O impacto mais difícil de identificar pode ser justamente uma compra futura que deixou de acontecer.
Empresas precisam avaliar melhor o efeito dos cortes
Para Braga, decisões relevantes sobre fornecedores, ingredientes, processos e embalagens deveriam incluir uma pergunta adicional: a empresa está retirando desperdício ou retirando uma razão para o consumidor voltar?
A distinção ajuda a aproximar qualidade da estratégia financeira.
Quando a redução de custos elimina ineficiências sem prejudicar o produto, a empresa ganha competitividade.
Quando atinge atributos que sustentam preferência, pode produzir um ganho imediato acompanhado de perda futura.
A avaliação de Edson Braga é que empresas de alimentos precisam incorporar essa análise às decisões de liderança, compras, produção e desenvolvimento.
Nesse contexto, qualidade deixa de ser tratada apenas como custo operacional e passa a ser considerada um componente do valor econômico da companhia.
