Coluna Márcia Bortolanza

A sociedade está perdendo a capacidade de se importar com a dor do outro?

Em artigo, a escritora e psicóloga Marcia Bortolanza reflete sobre o crescimento da indiferença, a importância da solidariedade e a necessidade de cultivar a empatia desde a infância.

Coluna Marcia Bortolanza
Escritora e Psicóloga

“Uma sociedade não perde sua humanidade de uma só vez. Ela começa a perdê-la quando o sofrimento do outro deixa de nos incomodar.”

Vivemos em uma época em que sabemos quase tudo sobre a vida dos outros, mas pouco nos interessamos verdadeiramente por ela. Acompanhamos tragédias em tempo real, compartilhamos notícias, manifestamos indignação nas redes sociais e, poucos minutos depois, seguimos nossa rotina como se nada tivesse acontecido.

Será que estamos nos acostumando com a dor alheia?

Como psicóloga, observo que a indiferença nem sempre nasce da ausência de sentimentos. Muitas vezes, ela surge do excesso de preocupações, da pressa cotidiana e de uma sociedade que valoriza cada vez mais as conquistas individuais. Estamos tão ocupados tentando dar conta da própria vida que, sem perceber, deixamos de olhar para quem caminha ao nosso lado.

O problema começa quando essa distância emocional se torna natural. Quando uma pessoa em sofrimento passa despercebida, quando a solidão de alguém não desperta interesse ou quando a solidariedade se limita a uma publicação nas redes sociais.

Não podemos confundir estar informado com estar envolvido. Conhecer uma realidade não significa necessariamente se comprometer com ela.

Ao longo da minha trajetória no trabalho social, aprendi que a solidariedade não exige grandes gestos. Muitas vezes, ela começa na disposição de ouvir, no respeito às diferenças, na atenção a uma necessidade ou na coragem de não permanecer indiferente diante de uma injustiça.

Foi também essa convicção que me levou a escrever Criança Solidária, Adulto Bem Sucedido. Acredito que a capacidade de se importar precisa ser cultivada desde a infância. Crianças que aprendem a reconhecer o outro como alguém digno de respeito e cuidado têm mais oportunidades de desenvolver relações humanas saudáveis e uma consciência coletiva.

Entretanto, não basta ensinar solidariedade às crianças se os adultos não a praticam. Os valores que transmitimos estão muito mais presentes em nossas atitudes do que em nossos discursos.

Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja recuperar a sensibilidade sem perder a capacidade de agir. Não precisamos carregar todas as dores do mundo, mas também não podemos permitir que elas se tornem invisíveis.

Uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não pode ser medida apenas por seus avanços tecnológicos, sua riqueza ou suas conquistas. Ela também precisa ser reconhecida pela maneira como trata os mais vulneráveis.

Ainda acredito na força dos pequenos gestos e na capacidade humana de transformar realidades.

Porque, no fim, a pergunta que deveríamos fazer não é apenas que mundo estamos construindo para nós, mas que mundo estamos deixando para aqueles que precisam de nós.

E você, quando foi a última vez que interrompeu sua própria pressa para realmente se importar com alguém?